O perdão que liberta o coração da cobrança
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Leituras do dia
- Primeira Leitura
- Ez 12, 1-12
- Salmo Responsorial
- Sl 77(78)
- Evangelho
- Mt 18, 21-19, 1
Texto completo das leituras no site oficial da CNBB.
No corredor do prédio, um morador se abaixa para recolher os cacos de um vaso que caiu no chão. O barulho foi forte, a terra se espalhou pelo piso e uma criança, assustada, começa a pedir desculpas antes mesmo de alguém lhe dizer qualquer coisa. Ele poderia reclamar pelo transtorno, aumentar o medo daquela criança ou apenas deixar que outro resolvesse a bagunça. Em vez disso, pega a vassoura, acalma quem treme e procura salvar a pequena planta que ainda ficou inteira. O que poderia se tornar apenas uma cobrança se converte em cuidado.
No Evangelho, Pedro deseja saber até onde deve ir o perdão. Sua pergunta parece generosa: perdoar sete vezes já seria muito. Jesus, porém, não oferece um número maior para que se faça uma contagem mais extensa. Ele desloca o coração de Pedro da lógica da medida para a lógica da misericórdia. Quem recebeu de Deus uma dívida impagável perdoada não pode sair diante do irmão com as mãos fechadas, exigindo cada pequena moeda.
A parábola é exigente porque revela uma contradição que pode habitar também a nossa vida. Suplicamos paciência quando falhamos, esperamos compreensão quando nos confundimos e nos alegramos quando alguém nos dá nova chance. Mas, diante da falha alheia, facilmente guardamos uma lista silenciosa: o que foi dito, o que não foi feito, a ajuda que não veio, a mágoa que ainda retorna. Jesus não chama isso de prudência, nem de justiça. Ele nos pergunta se a compaixão recebida alcançou de fato o nosso modo de olhar o outro.
Perdoar de coração não é fingir que a ferida não existiu, nem aceitar que o mal continue acontecendo. Há situações que pedem verdade, conversa séria, distância e até a busca de ajuda. Mas o perdão rompe a decisão de manter o outro preso para sempre ao seu erro. Ele entrega a Deus a cobrança que não conseguimos carregar sem endurecer por dentro. Assim, pouco a pouco, a ofensa deixa de governar a nossa vida.
Santa Dulce Lopes Pontes ilumina esse caminho pela misericórdia tornada gesto. No serviço aos pobres, aos doentes e aos esquecidos, ela não tratava as pessoas como problemas a serem afastados, mas como irmãos a serem acolhidos. Sua caridade não era distração diante da dor; era resposta concreta a quem precisava de dignidade. Esse testemunho recorda que um coração perdoado por Deus aprende a abrir espaço, a servir e a não reduzir ninguém à sua miséria, à sua fraqueza ou à sua dívida.
Hoje, talvez o Senhor não peça que você resolva tudo de uma vez, mas que pare de alimentar uma cobrança que já pesa demais. De quem você precisa se aproximar em oração, pedindo a graça de olhar com a compaixão que Deus tem tido com você?
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